Minha Lixeira Pessoal

Dia 1

Dedilhando sua carteira, como a pensar, Jânio olha a cena intrigado.

“Ei, Venha cá. Traga-me meu café, logo.”

O homem solicitado, pisando cuidadosamente, sai do recinto.

O Café é elemento essencial, são cinco da manhã. A chuva, parada há tempos, agora ameaça a cabeça dos cidadãos com seus alfinetes gelados novamente. Fora já se vê a aglomeração de seres, estes agora como pássaros, que depois da chuva procuram alimento entre as folhas derrubadas pelo vento. A cafeteria, logo a esquina, já cheia com o movimento da manhã, cheia de transeuntes curiosos, estes mantêm a descrição. Olham apenas da janela, como se aquele vidro os fossem proteger do frio mundo exterior.

Jânio olha o seu relógio e se sente satisfeito. Passou a noite ali, e agora acha que já tem provas suficientes para a investigação, só está a espera do IML.

A loja em que ele se encontra se estende em duas formas vermelhas, paralelas ao chão, delineadas na parede. O piso é de mogno muito antigo, com imensas fissuras. No teto existem 2 ventiladores, que não funcionam há anos, deduzindo-se isso apenas pela grossa camada de poeira existente nas pás. No centro anterior da sala, encontra-se uma cadeira, repleta de manchas de sangue. O cadáver foi encontrado no chão, com as costas escoradas a parede direita da loja. Pela vitrine, transparente como cristal, era possível ver claramente a sala, a cadeira e o cadáver. Uma cena quase grotesca, mas bela. As nuances da manhã pintaram um lindo quadro daquele assassinato.

A ambulância do IML estaciona em frente a loja. Descem dois homens vestidos de branco, como se fossem enfermeiros, como se fossem salvar uma vida. Entram e começam os preparativos para o corpo, levam um caixão de plástico preto, esse jaz do lado da vítima. Mas a vítima não quer ser salva, ela reluta com entusiasmo a entrar em seu caixão, só depois de uma injeção de calmante que é possível ajeita-lá confortavelmente em seu descanso.

Jânio pisa na soleira e nota que está chovendo. A chuva escorrendo pelo meio fio, as pessoas correndo a procurar abrigo, como se essa chuva fosse mata-lás. Pela sarjeta desce um barquinho de papel, como a chuva é bela. Leva embora, indiscriminadamente, tudo. Gostaria tanto que essa mesma chuva levasse aquela cena embora, o sangue que jorra do céu não é diferente do nosso, esse ainda tem o mesmo sentido, é o choro da natureza, a hemorragia da alma. Seu sobretudo já está embriagado de pensamentos. Pára um momento sob um toldo, olha o céu e vê apenas as nuvens cinzas.

Seu apartamento não é muito espaçoso, três cômodos breves, todos em cores pasteis já totalmente sujas com o tempo. Mora no centro velho de São Paulo, uma travessa da rua Direita. Não aparecia muito ali, pois só lhe convia o sono, esse o qual não era sempre, pois quando não era o trabalho, era a própria vida que o tirava de seu sono. Como falávamos, o café é essencial.

Entrou no apartamento, despejou-se na prateleira mais próxima e foi ter seu sono psíquico.

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Dia 2

“Apague isso!”

Ouve o grito desesperado da pessoa sentada a sua frente. Um refletor industrial está diretamente focado em sua face.  Jânio se levanta, dirige-se a uma mesa metálica, que em inspeção absolutamente cuidadosa, é possível notar o fato de levar instrumentos cirúrgicos. Apenas o barulho do manuseio desses deixa o interrogado em pleno pavor. Suas pupilas estão totalmente dilatadas, só é possível agora ouvir a sua respiração animalesca. Jânio olha mais uma vez para traz antes de retirar um instrumento aparentemente afiado da mesinha. Era como se algum animal estivesse no lugar daquele homem, a atmosfera do local estava como em um abatedouro, onde os animais não sabem ao que leva aquela porta de aço inoxidável a frente deles. Mas a única saída daquele lugar é aquela porta, presume-se isso pelo fato de que todos que entram ali não saem mais, eles não aparecem novamente, como ocorreria se aquela porta levasse a algum lugar estranho ou desconhecido. Logo então a única esperança é simplesmente adentrar-se pela porta. A única e última esperança.

Acorda com o grito ríspido como o de uma maritaca em sua orelha, seu bipe estava vibrando vigorosamente em cima de sua cômoda, desta vez uma chamada urgente da delegacia. Uma da madrugada.  Novamente sua noite fora perdida, mal conseguiu dormir. Toda a noite, o mesmo sonho. Em todo o sono aquela cena o perturbava em seu interior, cada dia passado, era como se o torturassem. Ele sabia que não aguentaria mais muito tempo assim, seu trabalho demandava uma atmosfera calma, rígida e áspera. Não conseguiria continuar. Pensando, acaba por esquecer de levantar, e o seu cérebro engole-o novamente nas trevas de sua psique.

A desgraça era muito grande para os olhos de qualquer humano. Originalmente aquela sala não era vermelha. Foi impressionante como o sangue de uma pessoa conseguiu pintar tantos metros quadrados. No centro encontrava-se um corpo esquelético. analisando o corpo,  percebe-se  que era de uma criança, com pequenos cortes acima dos tornozelos e nas axilas. Ainda conservava as roupas, que constituíam em um macacão e uma camiseta rasgada. A cor realmente já não era mais reconhecível, a sala era vermelha, a criança estava coberta com seu próprio sangue, sua roupa vermelha. Vermelho de morte.

“É impressionante como somos apenas peças de um dominó.”

Diz o rapaz à sua esquerda, Jânio olha curiosamente. Em casos assim, não existe muita comunicação no ambiente do crime, era como se um véu  negro cobrisse a cabeça de todos, sufocando cada um, apertando suas almas e sugando seus sentimentos.

“É impressionante como dependemos de tudo para sobrevivermos, se retirarem alguma parte realmente nossa, perecemos.”

Acorda dessa vez alarmado. Não era o sonho de sempre, estranhamente nunca nem sequer tinha visto aquela cena. O rapaz que havia proferido a frase era conhecido de Jânio. Mas todos são conhecidos, depois de tantos anos sendo corroído pelo sistema da lei, no qual existe a extrema necessidade de reconhecimento facial.  De onde era aquele rosto? Parecia-lhe familiar, mais familiar que uma 3×4 anexada em papel.

Levanta, troca-se rapidamente e percebe que só tinham passados alguns minutos da sua chamada do bipe. Abre sua porta, respira fundo e se retira de seu aposento.

Dia 3

As janelas do metrô refletiam a claridade daquela madrugada. Eram três da manhã e a chuva ameaçava novamente a capital, os raios, como os dedos de Deus, alcançavam o topo dos prédios, inutilmente tentando feri-los. Os prédios, relutantemente, em pé, eram apenas mais uma vitória dos humanos sobre a natureza. A cada raio, as sombras projetavam-se no chão e os prédios dobravam e se estendiam pelas avenidas. O metrô caminhava lentamente comparada com a ferocidade daquela batalha, e a cena estendia-se também ao vagão. As cabeças projetadas ao chão eram minimas comparadas as forças da natureza, mas ainda assim eram fortes demais. Jânio ouvia agora, como se tocassem piano a poucos metros dele, os solenes noturnos que ambientavam aquela cena a ponto da perfeição. As sombras eram tão singelas que, se a morte estivesse a andar entre aqueles corpos, mal sentiriam sua presença. Aquele era o momento, e a natureza mostrou aquilo, perfeitamente.

A avenida Ipiranga era adornada com a delegacia mais antiga da cidade. O aspecto era soturno. Depois de tantos anos de serviço, já não era mais possível a distinção daquele quartel de um açougue. Em espirais, o prédio subia em pequenos andares e, a cada um desses, gigantes de pedra perdidos enfeitavam as vagas onde de devido estariam as viaturas. Os gigantes agora apenas estimulavam a destruição e a violência, as linhas vermelhas e pretas agora apenas símbolos da decadência de outrora. Os pedaços das peças perdidas entre os escombros da lataria. Sob a carcaça moribunda, via-se o sangue já seco dos motores que um dia já ronronaram. A maioria dos vidros estilhaçados por própria diversão dos internos, que por falta do que fazer, utilizavam aqueles carros como alvo. Os tiros de calibre doze estraçalhavam as vísceras petrificadas dos gigantes, mas agora eles já mal sentiam dor, o árduo trabalho que um dia executaram era mais doloroso que qualquer fogo amigo.

Jânio não se destacava naquele lugar, Combinava completamente com as cores pastéis das paredes. “Quase nenhum trabalho, assim ninguém tem que trabalhar” era o que diziam, era como todo repartimento público funcionava.

 

Dia 4

Sobre sua mesa estendiam-se papéis, como se esperando para serem agolfinhados pelo tédio mórbido do local.  No teto, o mofo dominava completamente, era a maior presença viva naquele cenário. Eram três cômodos apertados, apenas uma janela, talvez esse o motivo pelo qual Jânio não vivia sozinho naqueles cômodos. Os jornais no chão destacavam a avidez em que Jânio não lia nada. Já eram tempos em que prometera cancelar a assinatura diária do jornal, e o mesmo chega como se a gozo, mesmo desquerido naquele ambiente, mas ainda útil. Os jornais tornaram-se o novo carpete do cenário, o antigo comido por insetos aqui inomeáveis.

A noite anterior não fora boa. Não dormira e ainda tinha muita burocracia para resolver. Jânio senta-se a minúscula janela de seu quarto, já fazia tempo que não apreciava o sol. Mesmo que não gostasse tanto da luz do dia, mas a noite já lhe trazia arrepios. Toda noite era a repetição de toda a aberração humana, a catástrofe da realidade distorcida pelas sombras tortuosas da noite. O sol não trazia arrepios, ele tem o prazer de encobrir os rastros da noite, faze-la como nunca existente, pois a única hora do dia, é dia. A sombra da armação da janela se estendia pelo cubículo em que morava, quadrados, como de uma prisão, criavam suntuosos  mosaicos de sujeira e papéis amanhecidos. Nesse momento, os papéis é que estavam se debruçando sobre Jânio, estes cada vez pesando mais sobre ele. As letras saiam do papel dançando, suavemente, corroendo misteriosamente a cabeça de Jânio e levando-o ao estado mais profundo de torpor.

O lençol não era o suficiente pra cobrir Isabela. O vento atravessava os madeirites como navalha, e arremessava seus cabelos em frenesi. A lâmpada incandescente dançava com o movimento das telhas, criando sombras e desfazendo delas do mesmo modo.

“Abaixe sua cabeça Isabela querida, já vai passar.”

A cada batida que o telhado performava, com grande esforço do vento, nas vigas de sua casa, só se via cada vez mais Isabela diminuir em seu pequeno abrigo de pano. A chuva escorria entre as paredes, se esgueirava entre as frestas do telhado, pingava em poças sujas perdidas pelos cantos da casa.

No meio das insanidades da natureza, criou-se a insanidade humana.

Entre os chutes contra a porta e os raios, a diferença era inexistente. Como um saqueador mongol, executou sua melhor arte. O sangue agora misturava-se lentamente com a água empoçada, tornara-se vinho.

Acorda assustado. Cada dia mais era atormentado por sonhos. O único momento de paz da realidade é o que traz ela em sua melhor forma. As lágrimas escorriam pelos seus olhos, sua esposa havia desaparecido já há quase dois anos, ainda lembrava claramente do dia em que sentiu seu apartamento oco. Chegara, o típico “Onde você tava até essa hora, não gosto de ver você se matando assim.” não ressoou para lembra-lo que ainda tinha algo além do serviço, para lembrar que a vida não se resumia ao que ele vivia.