Dia 4

por Morte.

Sobre sua mesa estendiam-se papéis, como se esperando para serem agolfinhados pelo tédio mórbido do local.  No teto, o mofo dominava completamente, era a maior presença viva naquele cenário. Eram três cômodos apertados, apenas uma janela, talvez esse o motivo pelo qual Jânio não vivia sozinho naqueles cômodos. Os jornais no chão destacavam a avidez em que Jânio não lia nada. Já eram tempos em que prometera cancelar a assinatura diária do jornal, e o mesmo chega como se a gozo, mesmo desquerido naquele ambiente, mas ainda útil. Os jornais tornaram-se o novo carpete do cenário, o antigo comido por insetos aqui inomeáveis.

A noite anterior não fora boa. Não dormira e ainda tinha muita burocracia para resolver. Jânio senta-se a minúscula janela de seu quarto, já fazia tempo que não apreciava o sol. Mesmo que não gostasse tanto da luz do dia, mas a noite já lhe trazia arrepios. Toda noite era a repetição de toda a aberração humana, a catástrofe da realidade distorcida pelas sombras tortuosas da noite. O sol não trazia arrepios, ele tem o prazer de encobrir os rastros da noite, faze-la como nunca existente, pois a única hora do dia, é dia. A sombra da armação da janela se estendia pelo cubículo em que morava, quadrados, como de uma prisão, criavam suntuosos  mosaicos de sujeira e papéis amanhecidos. Nesse momento, os papéis é que estavam se debruçando sobre Jânio, estes cada vez pesando mais sobre ele. As letras saiam do papel dançando, suavemente, corroendo misteriosamente a cabeça de Jânio e levando-o ao estado mais profundo de torpor.

O lençol não era o suficiente pra cobrir Isabela. O vento atravessava os madeirites como navalha, e arremessava seus cabelos em frenesi. A lâmpada incandescente dançava com o movimento das telhas, criando sombras e desfazendo delas do mesmo modo.

“Abaixe sua cabeça Isabela querida, já vai passar.”

A cada batida que o telhado performava, com grande esforço do vento, nas vigas de sua casa, só se via cada vez mais Isabela diminuir em seu pequeno abrigo de pano. A chuva escorria entre as paredes, se esgueirava entre as frestas do telhado, pingava em poças sujas perdidas pelos cantos da casa.

No meio das insanidades da natureza, criou-se a insanidade humana.

Entre os chutes contra a porta e os raios, a diferença era inexistente. Como um saqueador mongol, executou sua melhor arte. O sangue agora misturava-se lentamente com a água empoçada, tornara-se vinho.

Acorda assustado. Cada dia mais era atormentado por sonhos. O único momento de paz da realidade é o que traz ela em sua melhor forma. As lágrimas escorriam pelos seus olhos, sua esposa havia desaparecido já há quase dois anos, ainda lembrava claramente do dia em que sentiu seu apartamento oco. Chegara, o típico “Onde você tava até essa hora, não gosto de ver você se matando assim.” não ressoou para lembra-lo que ainda tinha algo além do serviço, para lembrar que a vida não se resumia ao que ele vivia.

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