Dia 3

por Morte.

As janelas do metrô refletiam a claridade daquela madrugada. Eram três da manhã e a chuva ameaçava novamente a capital, os raios, como os dedos de Deus, alcançavam o topo dos prédios, inutilmente tentando feri-los. Os prédios, relutantemente, em pé, eram apenas mais uma vitória dos humanos sobre a natureza. A cada raio, as sombras projetavam-se no chão e os prédios dobravam e se estendiam pelas avenidas. O metrô caminhava lentamente comparada com a ferocidade daquela batalha, e a cena estendia-se também ao vagão. As cabeças projetadas ao chão eram minimas comparadas as forças da natureza, mas ainda assim eram fortes demais. Jânio ouvia agora, como se tocassem piano a poucos metros dele, os solenes noturnos que ambientavam aquela cena a ponto da perfeição. As sombras eram tão singelas que, se a morte estivesse a andar entre aqueles corpos, mal sentiriam sua presença. Aquele era o momento, e a natureza mostrou aquilo, perfeitamente.

A avenida Ipiranga era adornada com a delegacia mais antiga da cidade. O aspecto era soturno. Depois de tantos anos de serviço, já não era mais possível a distinção daquele quartel de um açougue. Em espirais, o prédio subia em pequenos andares e, a cada um desses, gigantes de pedra perdidos enfeitavam as vagas onde de devido estariam as viaturas. Os gigantes agora apenas estimulavam a destruição e a violência, as linhas vermelhas e pretas agora apenas símbolos da decadência de outrora. Os pedaços das peças perdidas entre os escombros da lataria. Sob a carcaça moribunda, via-se o sangue já seco dos motores que um dia já ronronaram. A maioria dos vidros estilhaçados por própria diversão dos internos, que por falta do que fazer, utilizavam aqueles carros como alvo. Os tiros de calibre doze estraçalhavam as vísceras petrificadas dos gigantes, mas agora eles já mal sentiam dor, o árduo trabalho que um dia executaram era mais doloroso que qualquer fogo amigo.

Jânio não se destacava naquele lugar, Combinava completamente com as cores pastéis das paredes. “Quase nenhum trabalho, assim ninguém tem que trabalhar” era o que diziam, era como todo repartimento público funcionava.

 

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