Dia 2

por Morte.

“Apague isso!”

Ouve o grito desesperado da pessoa sentada a sua frente. Um refletor industrial está diretamente focado em sua face.  Jânio se levanta, dirige-se a uma mesa metálica, que em inspeção absolutamente cuidadosa, é possível notar o fato de levar instrumentos cirúrgicos. Apenas o barulho do manuseio desses deixa o interrogado em pleno pavor. Suas pupilas estão totalmente dilatadas, só é possível agora ouvir a sua respiração animalesca. Jânio olha mais uma vez para traz antes de retirar um instrumento aparentemente afiado da mesinha. Era como se algum animal estivesse no lugar daquele homem, a atmosfera do local estava como em um abatedouro, onde os animais não sabem ao que leva aquela porta de aço inoxidável a frente deles. Mas a única saída daquele lugar é aquela porta, presume-se isso pelo fato de que todos que entram ali não saem mais, eles não aparecem novamente, como ocorreria se aquela porta levasse a algum lugar estranho ou desconhecido. Logo então a única esperança é simplesmente adentrar-se pela porta. A única e última esperança.

Acorda com o grito ríspido como o de uma maritaca em sua orelha, seu bipe estava vibrando vigorosamente em cima de sua cômoda, desta vez uma chamada urgente da delegacia. Uma da madrugada.  Novamente sua noite fora perdida, mal conseguiu dormir. Toda a noite, o mesmo sonho. Em todo o sono aquela cena o perturbava em seu interior, cada dia passado, era como se o torturassem. Ele sabia que não aguentaria mais muito tempo assim, seu trabalho demandava uma atmosfera calma, rígida e áspera. Não conseguiria continuar. Pensando, acaba por esquecer de levantar, e o seu cérebro engole-o novamente nas trevas de sua psique.

A desgraça era muito grande para os olhos de qualquer humano. Originalmente aquela sala não era vermelha. Foi impressionante como o sangue de uma pessoa conseguiu pintar tantos metros quadrados. No centro encontrava-se um corpo esquelético. analisando o corpo,  percebe-se  que era de uma criança, com pequenos cortes acima dos tornozelos e nas axilas. Ainda conservava as roupas, que constituíam em um macacão e uma camiseta rasgada. A cor realmente já não era mais reconhecível, a sala era vermelha, a criança estava coberta com seu próprio sangue, sua roupa vermelha. Vermelho de morte.

“É impressionante como somos apenas peças de um dominó.”

Diz o rapaz à sua esquerda, Jânio olha curiosamente. Em casos assim, não existe muita comunicação no ambiente do crime, era como se um véu  negro cobrisse a cabeça de todos, sufocando cada um, apertando suas almas e sugando seus sentimentos.

“É impressionante como dependemos de tudo para sobrevivermos, se retirarem alguma parte realmente nossa, perecemos.”

Acorda dessa vez alarmado. Não era o sonho de sempre, estranhamente nunca nem sequer tinha visto aquela cena. O rapaz que havia proferido a frase era conhecido de Jânio. Mas todos são conhecidos, depois de tantos anos sendo corroído pelo sistema da lei, no qual existe a extrema necessidade de reconhecimento facial.  De onde era aquele rosto? Parecia-lhe familiar, mais familiar que uma 3×4 anexada em papel.

Levanta, troca-se rapidamente e percebe que só tinham passados alguns minutos da sua chamada do bipe. Abre sua porta, respira fundo e se retira de seu aposento.

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